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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

MINISTERIAL 8


A MULHER SAMARITANA, COCA-COLA E JESUS
Às vezes, a gente ouve certas coisas que não aceita, mas não sabe bem o porquê. Só depois de algum tempo entende. Não foi por mera antipatia que aquela mensagem não desceu bem. Recordo-me quando ouvi pela primeira vez o paralelo entre Jesus e a Coca-Cola. O pregador, inflamado de zelo e paixão missionária, afirmava que numa viagem ao interior do Haiti, sob uma temperatura de mais de 40 graus, sentiu-se aliviado quando parou num quiosque miserável feito de palha de coqueiros e pôde comprar uma garrafa do mais famoso refrigerante do mundo. Devidamente refeito depois de beber sua Coca geladinha, perguntou ao dono da venda se já ouvira falar de Jesus. Ele não sabia de quem se tratava. E o nosso palestrante fez sua analogia, tentando dar um choque na complacência da igreja ocidental: “A Coca-Cola conseguiu alcançar o mundo inteiro em menos de um século e a igreja cristã ainda não cumpriu a ordem da Grande Comissão em mais de 20 séculos!”. Depois daquela primeira exortação, já devo ter escutado essa mesma comparação uma dúzia de vezes em diversas conferências missionárias. Verdade ou tolice? Pior. Estou certo que essas ilustrações não são meros simplismos, nascem de grandes erros teológicos (ou ideológicos?).
Coca-Cola é uma bebida inventada na Geórgia, Estados Unidos, com uma fórmula secreta. Sabe-se que sua receita original continha alguns ingredientes também encontrados na cocaína, daí o seu nome. Seus fabricantes nunca intencionaram outro propósito senão matar a sede das pessoas. A The Coca-Cola Company não convoca ninguém a rever valores do caráter, não confronta estruturas de morte, não se propõe a aliviar culpa, não revela a eternidade e nem Deus. Para chegar aos quiosques mais remotos do globo, bastou criar um produto doce e gaseificado. Investir bilhões em boas estratégias de propaganda, construir fábricas e desenvolver uma boa rede de distribuição para que o produto chegasse com a mesma qualidade nos pontos de venda. Tentar comparar a missão da igreja no anúncio do Reino de Deus às estratégias de mercado de um refrigerante, beira o absurdo. Confunde-se um bem material com uma pessoa e enxerga-se na mensagem um produto. Os missiólogos sucumbiram à lógica do mercado do novo milênio? Acreditam mesmo que cumpriremos nossa missão com os instrumentais corporativos? Tudo pode se tornar um produto?
No Brasil, o esforça-se muito para “vender” o Evangelho. Quase não se usa a mídia para proclamar os conteúdos do Evangelho. Alardeiam-se os benefícios da fé. Basta observar a enormidade de tempo gasto divulgando os horários dos cultos, a eficácia da oração, mostrando que aquela igreja é melhor e que a sua mensagem é a mais forte para resolver todos os problemas das pessoas. Aborda-se o Evangelho como um produto eficaz e adota-se uma mentalidade empresarial no seu anúncio. Prometem-se enormes possibilidades. Tratam as pessoas como clientes e sem constrangimento, anuncia-se que qualquer um pode adquirir esse determinado benefício com um esforço mínimo. As igrejas se transformam em balcões de serviços religiosos ou supermercados da fé. A tendência de oferecer cultos diferenciados e as intermináveis campanhas de milagres demonstram bem esse espírito. Como um supermercado com as gôndolas recheadas de produtos, as igrejas procuram incrementar os “serviços” ao gosto dos fregueses. Os pastores dividem os dias da semana com programações atrativas; gastam suas energias desenvolvendo estratégias que atraiam o maior número de pessoas. Sonham com auditórios lotados. Campanhas, correntes e demonstrações grotescas de exorcismos e milagres financeiros se sucedem. As pessoas, por sua vez, se achegam, seduzidos pelas promoções das prateleiras eclesiásticas.
Esse modelo induz as pessoas a adorarem a Deus por aquilo que ele dá e não por quem é. Não se anuncia o senhorio de Cristo, apenas os benefícios da fé. Os crentes acabam tratando a Bíblia como um amuleto e, supersticiosos, continuam presos ao medo. Vive-se uma religião de consumo.
Mas existe outra dimensão ainda mais sutil. Naomi Klein, jornalista canadense, publicou recentemente “Sem Logo” (Editora Record) para denunciar a tirania das marcas em um planeta obcecado pelo consumo. Ela defende a tese de que a grandes corporações do mercado global não vendem apenas os seus produtos, mas a marca. Procuram criar uma filosofia de vida embutida em seus produtos. Desejam induzir seus consumidores a acreditarem que podem viver um determinado estilo de vida, desde que comprem aquela marca específica. Assim os fumantes de Marlboro imaginam personificar o “cowboy” solitário, mesmo morando em um apartamento. Quando atletas amadores vestem as roupas ou calçam os tênis da Nike, acham que se transformam em campeões. Gente que vive presa no trânsito apinhado das grandes metrópoles, ao dirigir jipes com tração nas quatro rodas, sente-se desbravando sertões. Klein declara: “’Marcas, não produtos!’ tornou-se o grito de guerra de um renascimento do marketing liderado por uma nova estirpe de empresas que se viam como ‘agentes de significado’ em vez de fabricantes de produtos. Segundo o velho paradigma, tudo o que o marketing vendia era um produto. De acordo com o novo modelo, contudo, o produto sempre é secundário ao verdadeiro artigo. A marca e a sua venda adquirem um componente adicional que só pode ser descrito como espiritual”.
Infelizmente percebe-se o mesmo em determinados círculos cristãos. Querem fazer do Evangelho uma grife. Como? Primeiro transforma-se um seleto grupo de evangelistas, cantores e pastores em superestrelas ao estilo de Hollywood. Depois associam seu nome a grandes eventos e dão-lhes o holofote. Ensinam-lhes habilidades espirituais acima da média. Assim produzem-se ícones semelhantes aos do mundo do entretenimento. Eles aglutinam multidões, vendem qualquer coisa e criam novas modas. A indústria fonográfica enriquece, os congressos se enchem, e os novos astros do mundo “gospel” alavancam suas igrejas.
Jesus dialogou com uma mulher samaritana e ofereceu-lhe uma água viva. A mulher imaginou essa água com raciocínios concretos. Pensou que ao beber, nunca mais teria sede. Uma água dessas hoje, devidamente comercializada, seria um tesouro sem preço. “Dá-me dessa água e assim nunca mais terei que voltar aqui”.
Jesus corrigiu sua linha de pensamento. A água que ele oferecia não era mágica, mas um relacionamento: filhos e filhas adorando ao Criador em espírito em verdade. Infelizmente muitos evangélicos brasileiros propagandeiam água mágica. Pretensamente matando a sede de qualquer um no estalar dos dedos.
O evangelho não é produto ou grife, volto a repetir, mas uma alvissareira notícia. Não deveria se escravizar às regras do mercado. Ricardo Mariano em sua tese de doutoramento concluiu, para a vergonha de tantas igrejas neo-pentecostais: “As concessões mágicas feitas pelas igrejas pentecostais às massas desafortunadas, por certo, não constituem tão-somente meras concessões… observa-se que a oferta pentecostal de serviços mágicos segue cada vez mais uma dinâmica empresarial, ditada pela férrea lógica do mercado religioso, que pressiona os diferentes concorrentes religiosos a acirrarem seu ativismo e a tornarem mais eficazes suas ações e estratégias evangelísticas”.
Essa mercadoria religiosa caricaturada de evangelho não representa o leito principal da tradição apostólica. A indústria que encena essa coreografia carismática de muito barulho e pouca eficácia, não conta com o aval de Deus. Há de se voltar ao anúncio doloroso do arrependimento como primeira atitude para os candidatos ao Reino. Não se pode, em nome de templos lotados, omitir a mensagem da cruz. Precisa-se repetir sem medo a mensagem de Jesus: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8.34).
Se não voltarmos aos fundamentos do Evangelho, teremos sempre clientes religiosos, nunca seguidores de Cristo. Faremos proselitismo sem evangelizar. Aumentaremos nossa arrecadação sem denunciar pecados. Construiremos instituições humanas sem encarnação do Reino de Deus. E pior, continuaremos confundimos Jesus com Coca-Cola. No Maranhão há um refrigerante de grande sucesso com a marca Jesus. Entretanto, não se pode desejar alcançar o sucesso transformando Jesus numa soda e as igrejas em quiosques religiosos.
Que Deus tenha piedade de nós.
RICARDO GONDIN
Fonte: http://www.ricardogondim.com.br/

MINISTERIAL 7



CARTA DE PAULO A FILEMON


O nome Onésimo significa ‘util’, e o apóstolo dos gentios faz um jogo de palavras: ‘inútil’ versos ‘útil’. Ora, outrora Onésimo como escravo foi inútil a Filemom, porém, agora estava sendo útil tanto ao apóstolo quanto a Filemom, por causa do seu trabalho em prol do evangelho de Cristo (v. 12). Possivelmente Onésimo foi enviado a Filemom de posse desta carta, pois o apóstolo Paulo deixa claro na epístola que enviou Onésimo ainda no corpo da carta “Eu to tornei a enviar” ( v. 11).



Esta carta do apóstolo Paulo tem muito a nos ensinar, pois demonstra como se estruturavam algumas relações sociais próprio à sociedade à época.
Através desta epístola é possível nos informarmos e compreender como o apóstolo se relacionava com os seus irmãos em Cristo, bem como nos apresenta um pouco da personalidade e das disposições íntimas do apóstolo dos gentios.
A carta foi endereçada a Filemom, um cooperador do apóstolo, e trata de um escravo fugitivo que se converteu a Cristo, Onésimo, que pertencia, por direito, a Filemom.


1  PAULO, prisioneiro de Jesus Cristo, e o irmão Timóteo, ao amado Filemom, nosso cooperador, 2 e à nossa amada Áfia, e a Arquipo, nosso camarada, e à igreja que está em tua casa:
O apóstolo Paulo apresenta-se ao destinatário da carta, o irmão Filemom, como prisioneiro de Cristo. Os remetentes da epístola são, respectivamente, o apóstolo Paulo e o irmão Timóteo.
O irmão Filemom é tido em boa conta, tanto pelo apóstolo Paulo, quanto por Timóteo. A carta também contempla como destinatários a irmã Áfia, o irmão Arquipo, um companheiro de batalha, e todos quantos se reuniam na casa de Filemom (igreja).
A apresentação do apóstolo dos gentios serve somente para identificá-lo como remetente da Epístola, pois é possível depreender da própria carta que Filemom e o apóstolo Paulo eram amigos de longa data ( Fm 1:21  -22).

3  Graça a vós e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.
A saudação do apóstolo Paulo nesta carta segue o mesmo padrão das outras epístolas.
O apóstolo deseja que o favor imerecido de Deus, ou seja, a graça manifesta em Cristo, seja comum a todos.
De igual modo, ele desejou que a paz da parte de Deus, ou seja, a paz que excede todo entendimento, também fosse pertinente aos destinatários da carta, visto que, por meio dela, a inimizade que havia entre Deus e os homens foi desfeita.

4  Graças dou ao meu Deus, lembrando-me sempre de ti nas minhas orações; 5  Ouvindo do teu amor e da fé que tens para com o Senhor Jesus Cristo, e para com todos os santos;
O apóstolo Paulo sempre fazia menção do nome de Filemom em suas orações, e estava grato a Deus por ouvir acerca da confiança que Filemom deposita em Cristo, e do amor que ele dispensava a todos os cristãos (santos).
O agradecimento do apóstolo Paulo a Deus por Filemom é igual ao agradecimento que o apóstolo fez a Deus por causa da fé e do amor dos cristãos em Éfeso ( Ef 1:15  -16).

6  Para que a comunicação da tua fé seja eficaz no conhecimento de todo o bem que em vós há por Cristo Jesus.
O apóstolo Paulo compreendia que o amor que Filemom dispensava aos irmãos é um dos veículos de ‘comunicação’ mais eficiente na transmissão da verdade do evangelho.
Em nossos dias, muitos apostam no rádio, na televisão, na internet, em panfletos, etc., como sendo os veículos mais eficazes na comunicação da mensagem do evangelho. Mas, o apóstolo Paulo entendia que o amor demonstrado aos irmãos, além de ser o veículo de comunicação mais eficaz na propagação do evangelho, também demonstrava todo o bem que neles havia por ser uma nova criatura.

7  Tive grande gozo e consolação do teu amor, porque por ti, ó irmão, as entranhas dos santos foram recreadas.
O amor de Filemom era causa de alegria e consolação para o apóstolo Paulo, por dois motivos:
  • Saber que outros irmãos compartilham da mensagem do evangelho (fé) é consolo inefável "Isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, assim vossa como minha" ( Rm 1:12  ; 1Ts 3:7 ), e;
  • Ter as necessidades supridas em momentos difíceis por irmãos em Cristo também promove consolo e alegria, visto que tais dádivas são provenientes do amor que alguns cristãos nutrem para com os santos.
Não podemos nos esquecer que a consolação dos irmãos em amor é refrigério para o tempo presente, mas, a consolação do Senhor proveniente da verdade do evangelho é eterna "E o próprio nosso Senhor Jesus Cristo e nosso Deus e Pai, que nos amou, e em graça nos deu uma eterna consolação e boa esperança" ( 2Ts 2:16 ).
A ‘eterna consolação’ e a ‘boa esperança’ é o mesmo que a ‘mensagem do evangelho’, ou a ‘fé’ que uma vez foi dada aos santos ( Jd 1:3 ).


Relações Sociais

8  Por isso, ainda que tenha em Cristo grande confiança para te mandar o que te convém, 9  Todavia peço-te antes por amor, sendo eu tal como sou, Paulo o velho, e também agora prisioneiro de Jesus Cristo.
Antes de enviar Onésimo, o apóstolo Paulo faz um pedido a Filemom. O pedido tem por base o amor que Filemom nutria pelos cristãos, e não a condição de apóstolo que Paulo possuía.
O apóstolo Paulo evoca a sua real condição: um velho, que naquele momento estava preso. Observe qual era a condição de um dos maiores apóstolos de Cristo, e compare com o que é alardeado por muitas igrejas em nossos dias.
O apóstolo confiava em Filemom para restituir o seu escravo, porém, achou por bem enviá-lo juntamente com uma missiva demonstrando a nova condição em Cristo de Onésimo.

10  Peço-te por meu filho Onésimo, que gerei nas minhas prisões;
O pedido do apóstolo Paulo não era em seu próprio beneficio, antes tinha por alvo Onésimo, que embora era um dos seus filhos na fé, era escravo de Filemom.
Para Filemom, Onésimo era um escravo fujão, e para o apóstolo Paulo, um filho. O apóstolo declara que Onésimo é seu filho, que foi gerado em suas prisões.


11  O qual noutro tempo te foi inútil, mas agora a ti e a mim muito útil; eu to tornei a enviar.
Onésimo fugiu de Filemom e possivelmente acabou preso por algum motivo não expresso na carta, tendo se encontrado com o apóstolo Paulo na prisão.
O nome Onésimo significa ‘util’, e o apóstolo dos gentios faz um jogo de palavras: ‘inútil’ versos ‘útil’. Ora, outrora Onésimo como escravo foi inútil a Filemom, porém, agora estava sendo útil tanto ao apóstolo quanto a Filemom, por causa do seu trabalho em prol do evangelho de Cristo (v. 12).
Possivelmente Onésimo foi enviado a Filemom de posse desta carta, pois o apóstolo Paulo deixa claro na epístola que enviou Onésimo ainda no corpo da carta “Eu to tornei a enviar” ( v. 11).

12  E tu torna a recebê-lo como às minhas entranhas. 13  Eu bem o quisera conservar comigo, para que por ti me servisse nas prisões do evangelho;
Do mesmo modo que Onésimo foi enviado pelo apóstolo Paulo, um irmão em Cristo e companheiro na prisão, Filemom devia recebê-lo, não como um escravo, antes como sendo o próprio coração do apóstolo dos gentios.

Embora desejasse conservar Onésimo, o apóstolo Paulo restituiu o que pertencia por direito a Filemom. Em momento algum o apóstolo dos gentios se arroga no direito de ter o que pertencia a Filemom pelo fato de ser um dos apóstolos.

14  Mas nada quis fazer sem o teu parecer, para que o teu benefício não fosse como por força, mas, voluntário.
Embora fosse apóstolo de Cristo, Paulo nada fez sem a anuência de Filemom. Embora Onésimo prestasse serviço ao apóstolo em sua prisão, o apóstolo não quis forçar Filemom a deixar Onésimo com ele.
Em momento algum o apóstolo Paulo cobra pelo beneficio de ter anunciado evangelho ( 2Co 11:7 ).

15  Porque bem pode ser que ele se tenha separado de ti por algum tempo, para que o retivesses para sempre, 16  Não já como servo, antes, mais do que servo, como irmão amado, particularmente de mim, e quanto mais de ti, assim na carne como no SENHOR?
O apóstolo Paulo enfatiza que a fuga de Onésimo foi providencial, uma vez que lhe trouxe a possibilidade de ter um encontro com Cristo.
As relações sociais à época eram fortes, com fulcro em questões legais. Onésimo e Filemom nem mesmo figuravam em pólos distintos nas relações sociais, uma vez que Filemom era proprietário, e Onésimo era considerado como sendo um objeto.
Contudo, por serem ambos cristãos, e cientes da nova condição em Cristo: servos de Deus e irmãos em Cristo, o apóstolo Paulo procura lembrar Filemom que considerasse Onésimo como irmão amado, e não somente como servo.
Observe que com relação à igreja de Cristo, o apóstolo Paulo demonstra que não há diferença entre os membros do corpo do Senhor "Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" ( Gl 3:28 ), porém, o apóstolo Paulo não ergue uma bandeira ‘abolicionista’, antes conscientiza os servos a servirem aos seus senhores, como se servissem ao Senhor ( Cl 3:22 ; Ef 6:5 ).
Mas, o apóstolo Paulo também exorta que, caso fosse dado aos cristãos que eram escravos a oportunidade para serem livres, que aproveitassem a ocasião "Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião" ( 1Co 7:21 ).
Observe que o caso de Filemom e Onésimo é distinto do caso de outros servos à época, visto que neste caso em específico, o apóstolo dos gentios tinha amizade com Filemom, e nada fez por imposição (v. 14).
A parte final do verso parece destacar que Onésimo e Filemom eram provenientes de um mesmo povo, nação, ou etnia, pois ao dizer a Filemom que considerasse como irmão na carne e no Senhor “Não já como servo, antes, mais do que servo, como irmão amado, particularmente de mim, e quanto mais de ti, assim na carne como no SENHOR?” (v. 16 ).

17  Assim, pois, se me tens por companheiro, recebe-o como a mim mesmo. 18 E, se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta.
O apóstolo Paulo invoca a amizade que possuíam para dar sustentação ao seu pedido. Se Filemom considerava o apóstolo dos gentios como seu companheiro, que recebesse Onésimo como se fosse o próprio apóstolo.
É evidente que só a fuga de um escravo já auferiu um prejuízo a Filemom, porém, o apóstolo quer pagar qualquer dano que fora causado pelo, agora, irmão Onésimo.

19 Eu, Paulo, de minha própria mão o escrevi; eu o pagarei, para te não dizer que ainda mesmo a ti próprio a mim te deves. 20 Sim, irmão, eu me regozijarei de ti no Senhor; recreia as minhas entranhas no Senhor.
O apóstolo Paulo apresenta a sua escrita de próprio punho como forma de autenticar a carta.
Embora apóstolo, Paulo não usou do seu ministério para defraudar o seu irmão em Cristo.
O apóstolo dos gentios esperava ter a oportunidade de poder pagar os prejuízos causados por Onésimo, embora se fosse pesar em uma balança, quem estava em débito com o apóstolo Paulo seria Filemom, uma vez que o apóstolo Paulo estava lhe enviando alguém com nova disposição.
Antes, Onésimo causava prejuízo, agora, por ter um encontro cm Cristo, Onésimo serviria o seu senhor como se estivesse prestando um serviço ao Senhor de sua alma. A dívida de Filemom não guarda qualquer relação com o fato de o apóstolo Paulo ter-lhe anunciado o engelho de Cristo "Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus" ( Cl 3:22 ).

21 Escrevi-te confiado na tua obediência, sabendo que ainda farás mais do que digo. 22 E juntamente prepara-me também pousada, porque espero que pelas vossas orações vos hei de ser concedido.
O apóstolo recomenda Onésimo a Filemom, porém, deixa a cargo de Filemom a decisão de como tratar o seu escravo, embora agora fosse seu irmão em Cristo.
Observe que o apóstolo Paulo não se intromete em questões de ordem sócio-cultural. Este não é o estandarte do evangelho de Cristo.
Soma-se ao pedido do apóstolo o desejo de visitar os irmãos, quando menciona a necessidade de preparar uma pousada. Ora, se os cristãos oravam esperançosos que o apóstolo Paulo fosse solto, que preparasse pousada.

23 Saúdam-te Epafras, meu companheiro de prisão por Cristo Jesus, 24 Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus cooperadores.
O apóstolo Paulo enumera alguns dos seus irmãos em Cristo que estavam em sua companhia e também estavam enviando uma saudação.
Dentre eles, o apóstolo Paulo destaca Epafras, um dos fiéis ministros de Cristo e conservo do apóstolo dos gentios ( Cl 1:7  ).
Dentre os cooperadores, temos Marcos, cujo nome era João ( At 12:25  ). Aristarco, um macedônico ( At 19:29  ). Demas, um dos que abandonaram o apóstolo Paulo ( 2Tm 4:10  ; Cl 4:14 ), e Lucas, o médico amado ( 2Tm 4:11  ).
No final da carreira do apóstolo Paulo, somente Lucas ficou com ele ( 2Tm 4:11 ).
Outro, que o apóstolo enumera entre os que mandaram saudação, e que é digno de destaque, refere-se a João Marcos, que outrora fora o motivo da contenda entre Paulo e Barnabé.
Observe que o apóstolo Paulo errou quanto à avaliação que fez de Marcos, visto que Barnabé aconselhou que o apóstolo Paulo levasse consigo Marcos, porém, o apóstolo negou-se a tê-lo em sua companhia preferindo Silas ( 2Tm 4:11 compare At 15:38 ).
No fim da carreira do apóstolo Paulo somente João Marcos ficou com ele, o que demonstra que o julgamento de Barnabé acerca de Marcos foi mais preciso, embora Marcos tivesse se afastado deles "Só Lucas está comigo. Toma Marcos, e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério" ( 2Tm 4:11 ; Atos 15:37 -38).

25 A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito. Amém.
O apóstolo Paulo despede-se do seu irmão em Cristo rogando que o favor imerecido de Deus (graça) em Cristo Jesus estivesse com Filemom.
Quando o apóstolo diz: ‘com o vosso espírito’, é uma referência ao homem em sua plenitude: corpo, alma e espírito.

pr dr Flávio da Silva

DEUS E O SACRIFÍCIO DE ABRAÃO

Ora, as provações não são instrumentos de medida para se mensurar a fé daqueles que professam a Cristo, antes tem o fito de ‘redundar’ em louvor, glória e honra na revelação de Cristo "Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam" ( Tg 1:12  ). Ou seja, a provação é conforme o propósito e segundo o conselho da vontade de Deus, ‘afim de sermos para louvor da sua glória’ ( Ef 1:11 -12). Abraão foi chamado por Deus para louvor de sua glória!
A ordem direta de Deus a Abraão para imolar Isaque fomenta várias discussões, distorções e interpretações errôneas acerca do objetivo de tal ordem.
A despeito da onisciência de Deus, muitos questionam qual o propósito de Deus em mandar Abraão imolar o seu filho. Deus queria saber até onde Abraão era obediente? Deus queria mensurar a fé de Abraão?
A resposta é simples, porém, demanda conhecimento bíblico e raciocínio. Para responder tal indagação é necessário relembrar alguns eventos específicos concernentes a vida de Abraão. Analisemos estes três pontos principais:

  • O chamado de Abraão
Abraão era gentil, morava na cidade de Ur, terra dos Caldeus. Seu pai saiu da cidade de Ur com destino a terra de Canaã. Porém, quando chegou a Harã, passou a habitar naquele lugar.
Abraão foi orientado por Deus a sair do meio de seus parentes seguindo para uma terra que ainda seria mostrada. Abraão saiu confiado em Deus tendo em vista uma promessa ( Gn 12:2 ). Obedeceu à voz divina, porém, levou consigo o seu sobrinho Ló até a terra de Canaã ( Gn 12:5 ).
Após passar pela terra de Canaã, novamente Deus apareceu a Abraão e prometeu aquela terra à sua descendência. Abraão, que à época chamava-se Abrão, ali edificou um altar ao Senhor, e seguiu em direção ao sul.
Abraão desceu ao Egito por causa da escassez de alimento e quando se estabeleceu no Egito adquirindo riquezas. Após ter alcançado bens o patriarca foi compelido a deixar o Egito, pois Deus feriu o rei do Egito por causa de Sara, mulher de Abraão. Em seguida, Abraão subiu do Egito para as regiões do Nequebe juntamente com Ló.
Perceba que Abraão poderia continuar morando no Egito, porém, a grande praga que sobreveio ao rei do Egito fez com que Abraão saísse de lá.
Abraão seguiu do Egito para a região do Neguebe e retornou ao local que fez o primeiro altar ao Senhor, Betel, ou seja, voltou ao ponto inicial de sua peregrinação. Após uma contenda entre os servos de Ló e os servos de Abraão, eles se separaram. Ló foi levado cativo e Abraão teve que lutar contra quatro reis para libertá-lo.
Após a guerra, saiu ao encontro de Abraão o rei de Sodoma e o rei de Salém. O rei de Salém abençoou Abraão, e o rei de Sodoma fez uma proposta a Abraão, que foi rejeitada de pronto: “Levantei a minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra, jurando que não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu, nem um fio nem uma correia de sapato, para que não digas: eu enriqueci a Abrão” ( Gn 14:22  -23).
De tudo que relembramos até aqui, surgem algumas considerações: Por que Abraão precisou sair do Egito, se ele não alcançou a promessa e viveu como peregrino na terra? Por que Abraão não aceitou a proposta do rei de Sodoma se era legitimo ele aceitar tal prêmio?
Diante da proposta do rei de Sodoma Abraão entendeu que, caso aceitasse, no futuro alguém poderia interpretar que Abraão foi enriquecido através dos bens da cidade que foi subvertida por Deus. Se Abraão ficasse com os bens do rei de Sodoma, ficaria ‘constado na história’ que, o rei de Sodoma, e não Deus havia abençoado Abraão.
Abraão foi tentado a lançar mão de bens, que no futuro poderia dar a entender a Abraão que a promessa de Deus efetivou-se por uma conquista própria. Como bem sabemos posteriormente a cidade de Sodoma foi subvertida devido a sua promiscuidade excessiva.
Porém, fica uma questão sem resposta: onde e quando Abraão alcançou o discernimento para não fazer aliança com o rei de Sodoma, rejeitando o que lhe era de direito? A saída do Egito motivada pela praga na casa do rei proporcionou a Abraão uma lição de vida que o capacitou a rejeitar a aliança com o rei de Sodoma.
Com relação às questões materiais Abraão estava consciente de que deveria esperar em Deus.

  • A promessa de um descendente
Deus prometeu a Abraão que a sua descendência herdaria a terra que os seus olhos estavam enxergando no momento da reiteração da promessa ( Gn 13:14  ), porém, Deus ainda não havia prometido um filho a Abraão gerado por Sara.
Em face da promessa à sua ‘descendência’ ( Gn 15:1 ), Abraão ficou incomodado por não ter filho, e pretendia fazer o damasceno Elieser, o seu servo, o seu herdeiro.
Foi quando Deus prometeu a Abraão um filho de suas entranhas, sem qualquer referência a Sara, e creu Abraão e isto lhe foi imputado por justiça ( Gn 15:4  ).
Para Abraão Deus prometeu o impossível, visto que a época da promessa era de conhecimento que Sara era estéril, porém ele creu firmado no poder e na fidelidade de Deus, sendo declarado justo diante de Deus.
Apesar de Abraão crer em Deus e ser justificado, o tempo passava e ele continuava sem filho. Diante deste quadro, a mulher de Abraão resolveu providenciar filho a Abraão, e ele aceitou dar a Sara um filho através da escrava ( Gn 16:2 ).
É bem provável que Abraão tenha interpretado a atitude de sua mulher como sendo a providência divina: 1) Ismael foi gerado segundo a carne de Abraão, e; 2) o nascimento de Ismael encaixou ‘perfeitamente’ no que Deus lhe falara (um filho de suas entranhas).
Este entendimento decorre do fato de Abraão ter feito menção do nome de Ismael quando Deus reiterou a promessa: “Oxalá viva Ismael diante de ti!” ( Gn 17:18 ). Abraão já estava compreendendo que Ismael era o filho da promessa, o seu ‘primogênito’ e herdeiro.
Algum tempo depois, Abraão foi interpelado por sua mulher, que exigiu que Ismael não herdasse juntamente com Isaque. Abraão ficou temeroso, visto que Ismael seria o seu ‘primogênito’, porém, descansou em Deus quando foi orientado a esperar na providência divina e que ele não estaria fazendo nenhum mal ( Gn 21:12 ).

  • O milagre
A despeito do riso de Abraão no coração, a promessa de Deus continuou de pé ( Gn 17:17  ), e no tempo determinado nasceu Isaque.
Isto demonstra que a fidelidade de Deus é a causa de Abraão ter sido justificado e abençoado segundo a promessa, visto que Abraão riu da promessa.
Em nossos dias a fé é tida como agente catalisador que desencadeia milagres, porém, o que a palavra de Deus demonstra é que a fidelidade e o poder de Deus devem ser à base da fé cristã.
Mesmo após Abraão apresentar seu servo damasceno e seu filho Ismael como opção diante de Deus, mesmo após rir da promessa, Deus permaneceu fiel à sua palavra.
Sara era estéril, de avançada idade (mais de 90 anos) e segundo a promessa de Deus concebeu Isaque. A bíblia demonstra que Abraão estava ciente das impossibilidades para se alcançar um filho com Sara:
  • Um homem de cem anos;
  • Sará com noventa anos;
  • Sará estéril ( Gn 17:17  ).
Diante das impossibilidades, o homem ri, pois não tem idéia da dimensão do poder de Deus. Diante do mar vermelho o homem fica temeroso, pois a impossibilidade do homem fica em evidência. Diante da necessidade de salvação o homem descobre que está à mercê do pecado e da morte, porém, o que é impossível aos homens, para Deus é possível.

Por que Deus exigiu o sacrifício de Isaque?
Através da análise anterior, fica demonstrado que certos eventos relatados na história de Abraão são difíceis de captar. O relato da história do patriarca Abraão não se prende a explicar certos porquês, antes se fixa somente nos fatos.
Como é possível a bíblia apontar Abraão como sendo um exemplo de fé, sendo que em determinado momento da sua vida ele riu da promessa, e apresentou uma alternativa diante de Deus? Não era para ele ter perdido a bênção neste evento?
Por que Abraão tentou ‘ajudar’ Deus cumprir a promessa através de Ismael? Uma leitura superficial da história de Abraão faz com que o leitor não perceba este detalhes de suma importância ao contexto geral das escrituras.
Outro ponto a se destacar é concernente a aliança proposta pelo rei de Sodoma. Abraão foi tentado a ajudar Deus com riquezas provenientes do fruto de suas conquistas pessoais, porém, rejeitou-a, pois entendeu que a sua prosperidade deveria ser fruto da promessa divina.
Isto é maravilhoso, porém, onde Abraão aprendeu esta lição? Se levarmos em conta o fato de Abraão ter sido expulso do Egito por causa de uma praga que sobreveio ao Faraó, veremos que neste evento ele aprendeu que rei algum seria o pivô da riqueza pertinente a sua descendência.
Se Abraão não aprendesse a lição no Egito, certamente sucumbiria diante da aliança e oferta do rei de Sodoma. Observe que o perigo rondava Abraão de perto. Se Abraão fizesse uma aliança com Sodoma, certamente diriam que:
  • Sodoma foi responsável pela prosperidade de Abraão, ou;
  • Abraão poderia reputar que as suas riquezas era fruto de suas conquistas pessoais.
Surge outra pergunta: havia algum risco para Abraão acerca do nascimento de Isaque, caso Deus não tivesse posto Abraão a prova. Como? Isto mesmo! Analisemos se havia algum risco para Abraão, caso ele não fosse submetido à provação.
Observe como é fácil o homem confundir-se:
É notório para nós que Isaque foi quem nasceu segundo a promessa de Deus, porém, Abraão fez menção de Ismael perante Deus, pois estava esperançoso que o filho da escrava fosse o seu herdeiro;
Embora Isaque tenha nascido segundo a promessa, Abraão ainda podia e continuou a gerar filhos, mesmo após os cem anos ( Gn 25:1 - 2).
Neste ponto em específico (b) havia um grande perigo rondando o patriarca. Havia um risco para Abraão decorrente do fato de ele gerar filhos segundo a sua carne, mesmo em avançada idade. Havia o risco de Abraão se gloria da sua carne, pois mesmo em avançada idade ainda gerava filhos.
Hoje seria tema de discussão cientifica se Isaque era mesmo filho segundo a promessa, ou se Sara nunca foi estéril de fato. O cuidado que Abraão teve com relação ao rei de Sodoma, para que ninguém dissesse no futuro: “O rei de Sodoma foi quem enriqueceu a Abraão”, seria sem valia, visto que questionariam se Isaque foi realmente fruto da providência divina.
Quando nasceu Isaque, Abraão reputava com base na fé, que a promessa estava sendo cumprida. Mas, após Sara morrer e Abraão casar-se com Quetura, obtendo outros filhos, havia o risco de Abraão ser dissuadido da fé, e voltar a rir da promessa, visto que ele ainda podia gerar filhos, mesmo após considerar impossível obtê-los por causa da idade avançada ( Gn 17:17 ).
Quando Deus mandou Abraão imolar Isaque, Isaque era o seu ‘único’ filho, e não era cogitado Abraão ter mais filhos ( Gn 17:17 ). O evento demonstra que Deus não estava ‘testando’ e nem ‘mensurando’ a fé de Abrão. Deus não estava pondo à fé de Abraão a prova, uma vez que ele já havia sido justificado por Deus.
Deus não estava em dúvidas quanto à fé de Abraão quando o submeteu a prova!
O que Deus pretendia com a ‘provação’?
Com a provação Deus estava cuidando de Abraão! Como?
Pedro nos diz: “Essas provações são para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pe 1:7 e 1Pe 4:12 -14).
Ora, as provações não são instrumentos de medida para se mensurar a fé daqueles que professam a Cristo, antes tem o fito de ‘redundar’ em louvor, glória e honra na revelação de Cristo "Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam" ( Tg 1:12 ).
Ou seja, a provação é conforme o propósito e segundo o conselho da vontade de Deus, ‘afim de sermos para louvor da sua glória’ ( Ef 1:11 -12). Abraão foi chamado por Deus para louvor de sua glória!
Como Abraão riu-se da promessa quando vislumbrou as impossibilidades ( Gn 17:17 ), ele poderia novamente rir-se da providência divina após gerar filhos de Quetura ( Gn 25:1 -52).
As seguintes questões poderiam sobressaltar Abraão: Será que Sara era estéril mesmo? Ismael, Isaque, Zinrá, Jocsã, Medã, Midiã, Jisbaque e Sua não foram filhos da minha carne? Será que a falta do “costume das mulheres” em Sara era mesmo uma impossibilidade de ter filhos? A idade de Sara era um real impedimento para ela conceber? Visto que pude ter filhos com mais de cem anos com Quetura, o filho de Sara não poderia ser produto da minha ‘virilidade’?
Todas estas questões não poderiam levar Abraão a gloriar-se da sua carne?
Ao ser exigido o sacrifício de Isaque, Abraão teve que recobrar o seu filho dentre os mortos, confiado no poder de Deus “Abraão julgou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar, e daí também em figura o recobrou” ( Hb 11:19  ).
Ou seja, quando Abraão se predispôs obedecer à ordem divina para oferecem em holocausto o seu filho, ele deixou de ter um filho segundo a sua carne (embora o filho segundo a promessa de Deus fosse proveniente das ‘entranhas’ de Abraão e Sara), para receber o seu filho dentre os mortos.
Daquele momento em diante, Abraão estava desprovido de qualquer elemento que o levasse a considerar posteriormente que Isaque era fruto de sua carne, ou que a sua própria carne havia lhe concedido Isaque. Após o evento da oferta de Isaque, Abraão, segundo a providencia divina, teve a confirmação de que nada alcançou segundo a carne "Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?" ( Rm 4: 1).
Ao recobrar o seu filho dentre os mortos, o que Deus proporcionou a Abraão além do seu filho Isaque? Uma âncora que penetrou até o interior do que estava oculto. Ele foi ensinado a lançar mão da esperança proposta, e não do que era aparente e que desvanece ( Hb 6:18  -19).
Isaque não era a segurança de Abraão, antes a segurança estava na esperança proposta. A consolação esta em Deus que não mente e é imutável, o que faz o homem peregrinar em busca da pátria celestial! ( Hb 6:14 -18).
Para alcançar Isaque, Abraão teve que recobrá-lo dentre os mortos, agindo de modo a dar cabo da própria promessa. Naquele momento em que Abraão ofereceu o seu único filho, a palavra de Deus foi posta acima de evidências físicas da promessa.
Abraão descansou na providência divina, pois o descendente sobre quem a promessa repousaria ainda estava por vir!
Abraão alcançou esta graça em Deus, porém, o povo de Israel, os seus descendentes não compreenderam e nem fizeram como o crente Abraão. Apesar do exemplo concedido por Abraão, o povo não foi aprovado na prova do maná concedido no deserto. As pessoas estavam confiadas no maná que aparecia no deserto, porém, não confiavam na palavra de Deus, que deu origem ao maná. Não consideravam que ‘nem só de pão viverá o homem’ ( Dt 8:3  ).
A prova da fé do homem não é porque Deus quer saber ou mensurar algo a respeito do homem. Antes, a prova da fé tem em vista a preservação da confiança do homem, o que redunda em louvor, glória e honra a Deus ( 1Pe 1:7  ).

Outra questão
Com relação ao versículo que diz: “Agora sei que temes a Deus, pois não me negaste o teu filho, o teu único filho” ( Gn 22:12  ), temos uma caso típico de antropomorfismo, ou melhor, é um dos ‘modos’ de Deus se manifestar ou comunicar-se utilizando a forma, o modo, a características ou a linguagem humana.
O homem geralmente compara o desconhecido ou compreende algo desconhecido através de elementos e fatos conhecido. Por exemplo, ao descrever algum animal desconhecido, o homem utiliza-se do que conhece para descrevê-lo: tinha pés como o de homem; cabeça como a de cavalo, rabo como o de peru, etc ( Ez 1:10 ).
Do mesmo modo, ao fazer referência a Deus, diz-se que Deus descansou, uma vez que o homem descansa. Porém, surgem as questões: sendo Deus onisciente, onipresente e onipotente Ele pensa? Faz considerações? Chega a conclusões? Precisa descansar segundo a concepção humana? ( Is 40:8  -31).
Por certo que os ‘caminhos de Deus’ são muito elevados, e os seus ‘pensamentos’ inatingíveis! "Mas não sabem os pensamentos do SENHOR, nem entendem o seu conselho; porque as ajuntou como gavelas numa eira" ( Mq 4:12  ). Como expressar o que nunca se viu ou ouviu? O que nunca subiu ao pensamento do homem? "Mas, como está escrito: As coisas que os olhos não viram, e os ouvidos não ouviram, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam" ( 1Co 2:9  ).
Além das questões antropomorfista, é preciso considerar que a linguagem humana é dinâmica e transforma-se constantemente. Como alcançar o pensamento original de uma única palavra ou de uma frase escrita a milhares de anos? Por mais que muitos escribas procuraram ser fiéis à transcrição de textos, impressões pessoais podem afetar a idéia do texto.
É por isso que o estudo da bíblia deve ser sistemático, seguindo regras e princípios pertinentes a hermenêutica e a exegese. Não é o que um texto expressa que fará surgir ou que extirpará uma doutrina bíblica, antes o contexto geral das escrituras é observado para fazermos um juízo de valores e idéias.
Hoje já é difícil para um interprete ou tradutor secular transmitir a idéia contida em uma expressão idiomática, porém, esta é uma limitação humana.
A bíblia diz que Deus descansou no sétimo dia, porém, através da carta aos Hebreus fica demonstrado que a idéia de descanso que a bíblia imprime não tem relação com a necessidade de repouso. Através da palavra ‘descansar’ a bíblia quer evidenciar que não mais havia obras a serem realizadas.
Após o dia sexto nenhuma outra obra concernente a criação do universo foi realizada, pois tudo foi criado e estabelecido com perfeição.
‘Descansar’ no Gênesis significa não ter obrar a realizar, diferente da idéia que muitos querem dar: repouso por causa de cansaço "Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas" ( Hb 4:10  ). Ora, quando a bíblia diz que Cristo entrou no seu repouso, ela quer dar a entender que a obra de Cristo é perfeita como a do Pai.
Com relação ao registro: ‘agora sei que temes a Deus’, verifica-se que o temor (confiança) de Abraão foi levado em conta quanto da justificação por Deus ( Gn 15:6  ), ou seja, ao provar Abraão, Deus não tinha como objetivo mensurar a fé do patriarca.

Se considerarmos um dos recursos lingüístico próprio à retórica, percebe-se que o texto tem por objetivo transmitir (noticiar) a Abraão que ele foi provado e aprovado para louvor e glória de Deus, segundo a fé. Este verso não enfatiza falta de conhecimento em Deus, antes, a ênfase da frase está em tornar Abraão ciente de que estava aprovado.
Quando o Anjo do Senhor disse: ‘agora sei que temes a Deus’, o objetivo era louvar o homem que foi provado e aprovado com base na fé "Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, mas, sim, aquele a quem o Senhor louva" ( 2Co 10:18  )

pr dr Flávio da Silva